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janeiro 29, 2010 / Shigueru

Brincadeira de criança

Saudosistas. Da escola muitos são. O recreio, o jogo de bafo (será que as crianças ainda jogam isso?), a bagunça, as brincadeiras no geral. Saudades disso muitos tem. Nem tantas boas lembranças daquilo que acontecia antes e depois dos intervalos. As aulas.

Discutir sobre sua estrutura, alunos e professores, é assunto para outro post. Hoje vamos falar sobre outras coisas. Ranços. Isso mesmo.

Antes, bem antes, da internet como conhecemos hoje, os alunos realizavam suas pesquisas em almanaques, jornais, revistas, livros e enciclopédias. E geralmente eram feitos manuscritos em folhas de almaço (!). Dava trabalho. E muitas vezes, embora fosse questionável, a nota era de acordo com o esforço. Boa avaliação era sinônimo de alguns pares de páginas. Que faziam os olhos dos professores cintilarem. Certo ou errado, era assim. Confesso que conheci, já nos idos do ano 2000, um docente que utilizava uma balança para dar nota*.

Os anos passaram. Aquelas crianças, muitas delas, estão no mercado de trabalho. De lá para cá algumas enciclopédias faliram. Outros almanaques foram extintos. Os que ainda permanecem, outrora trabalhos de escola, são relatórios, especificações, apresentações etc etc.

Nesse período presenciamos uma explosão de informações. Agora muito mais acessíveis. Não é a toa que muito é dito sobre déficit de atenção nesse mar de informação. Coerente e eficaz, deveria ser o uso de textos curtos e objetivos. Será que é assim?

O relato a seguir é real. E nosso aluno agora é consultor (glamouroso não?). Como muitos trabalhos de consultoria, após um período de análises, entrevistas e reuniões, foram entregues relatórios. Neles constavam os resultados do trabalho. As recomendações e conclusões. Um documento em particular era composto por vinte e duas páginas.

E o que tinha nesse documento? Logo no início uma historinha da empresa. Quando foi criada, qual o propósito e outras coisas mais. A seguir, a metodologia utilizada para conduzir o trabalho da própria consultoria dentro do cliente. Folheia, folheia, folheia…já acreditando que estava com uma lâmina da empresa, restando algumas páginas antes do fim, voilà! Finalmente o que interessava. Isso descontando os rastros de Copy&Paste.

É claro que isso mereceu uma crítica. Construtiva é claro. Surpresa é a resposta do contratante “você precisava ver a versão anterior, quase um papel de pão”. Ok, 22 páginas ao contrário de 5 suficientes é melhor. Alguns gostam de vinhos. Outros de viajar. E também há aqueles que gostam de ser enganados. Ainda bem que os vendedores de Corolla não fazem esse tipo de coisa. Imagina se eles detalhassem o Sistema Toyota de Produção aos futuros compradores?

Outra causa comum, são os documentos baseados em templates travados. Com o falso pressuposto que assim existirá os ganhos da padronização. Campos obrigatórios que estão longe de fazer sentido, são preenchidos com as mais variadas artimanhas. Um traço. Um ponto. 123. A própria recomendação. Um mundo sem fim. Veja Template Zumbi se ficou interessado.

O de cima era consultor. Tem aluno que agora dá de professor antiquado: “só isso!? Não dá para detalhar mais?”. Combinado. Volto já da feira com uma caixa de abobrinhas.

Enquanto o terreno for fértil, as ervas daninhas continuaram sua saga. Síntese e clareza agora devem ser a bola da vez.

* Você pode encontrar sobre isso, de forma mais elaborada no livro Obrigado pela informação que você não me deu ou no Por que as pessoas de negócio falam como idiotas. Não lembro exatamente em qual dos dois. Garanto que vale a pena lê-los (agradeço ao Paulo Vasconcellos pelas dicas de leitura).

4 Comentários

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  1. Jefferson Velasco / fev 2 2010 11:28

    Shiguero san,

    Muito interessante. De uma forma mais conceitual o texto é importante para quem é pai ou mãe. De uma forma mais “auto-cêntrica” serve como comida de auto-crítica. E de uma forma mais prática serve como crítica a algumas práticas de comunicação no mundo TI.

    • Shigueru / fev 2 2010 13:09

      Olá Jefferson,

      Diria que é uma crítica a toda forma de comunicação propositalmente obscura. Privilégio não apenas de TI.

      Seja bem vindo!

      []s

      Shigueru.

  2. Paulo Vasconcellos / fev 2 2010 12:21

    Oi Shigueru,

    Parabéns pelo blog. O conteúdo é muito bom e rico. E obrigado pela citação. Aos que se interessaram pelo tema recomendo a leitura de “Obrigado Pela Informação que você NÃO me deu!”, de Normann Kestenbaum (Campus, 2008).

    Abraços!

    Paulo Vasconcellos

    • Shigueru / fev 2 2010 13:12

      Olá Paulo,

      É uma honra tê-lo aqui! Saiba que você é um dos responsáveis rs.

      Sobre o livro, indispensável.

      []s

      Shigueru.

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