Cachorro, mulher de malandro, grilos e ovelhas
O cachorro é o melhor amigo do homem. É o que diz a sabedoria popular. E que mulher de malandro, gosta é de apanhar. É o que dizem. E que diabos uma coisa tem a ver com outra?
A cena é clássica. Em filmes, gibis e livros. O fiel companheiro que dispara faceiro atrás do osso disparado pelo dono. E traz ainda mais feliz o objeto de volta. Esperando novamente, pela enésima vez, uma nova jornada daquele que um dia fez parte da pata de um boi.
O que é exibido é apenas um corte. Uma faceta mais interessante, pois a outra foi composta de trajetos nem tanto previsíveis. O osso que se perdeu. Ou que foi surrupiado pelo canino. Ou que simplesmente ficou só. Ao longo do treinamento, dizem os especialistas, que o animal deve ser recompensado. Um agrado aqui e outro biscoito ali. Nada mais justo.
Só que às vezes os animais não são tão justos. E querem que o cachorro aprenda a trazer o osso sem nenhuma contrapartida. Já que aquele último biscoito valeu por cinco rodadas (oras!). Até que ele se cansa. E desiste do osso. Acabou a graça. Dá-lhe bronca. Num primeiro momento, por precaução, o animal move as quatro patas, disfarçando ânimo, e traz o dito cujo de volta. Segue a cena. Talvez mais uma ou duas vezes. A escapatória é única saída para o canino. Momentânea.
Final de semana chega e rola aquele churrasco. O tio todo fanfarrão quer exibir as novas habilidades do seu cão. Lá vai o osso. E nada do animal. As crianças já ensaiam alguma zombaria. Então, por que não dar aquela linguiça assada? Daí vai funcionar, é claro. Imagina, para quem só come ração! No final as crianças riem muito. Mas do animal que segura o copo de cerveja.
Cachorro preza pelo companheirismo. Pelo bom tratamento constante. Mulher de malandro não. Gosta de cafuné e de apanhar. De apanhar e de cafuné.
Funcionário (colaborador se você preferir) é a mesma coisa. Que o cachorro. Ok, alguns preferem bofetes e bofetadas. Mas no geral, felizmente o tal do ser humano quer ser bem tratado. Quer ser respeitado. Quer ser levado a sério. Valorizado e por aí afora.
Mas como na vida nem tudo são flores, ocorrem alguns conflitos daqui e dali. Alguns são tranquilos. Fazem parte da vida. Outros infelizmente não deveriam fazer. E quando esses viram rotina, por menores que sejam, não há linguiça assada que resolva.
É aí que os grilos entram em cena. Esses insetos são especialistas em dar o ar de sua graça naquelas situações constrangedoras. Na comédia em pé, são aquelas vezes em que o improviso foi um fiasco. Não teve a menor graça. E a plateia fica praticamente amarela. Crrrri, crrrri, crrrri. São os grilos.
No mundo corporativo, por sua vez, isso acontece nas ocasiões do tipo “entrega da linguiça assada”, principalmente. A chance é maior quando número de pessoas é grande. Só não é grande a sinceridade. E o valor dos parabéns. Nem importa quão reluzente é a insígnia do comediante. Os grilos aterrorizam.
Ahhhh, as ovelhas. E suas cândidas lãs. Sua força está no coro. Do conjunto. Foi assim na Revolução dos Bichos, de George Orwell. Mas aqui seus maiores inimigos não são os lobos. São os grilos. E dá-lhe ovelhinhas. Que até palmas batem.

